quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Qause Delírio (Parte Quinta)

Cont

DEMORAMOS NO MIRAR, face a face, muitíssimo próximos; ela com o olhar caído e eu a olhando fixamente nos olhos; já podia eu sentir o calor que ardia no rosto dela. Monise, por mais que ofegasse, por mais pressionada que estivesse não cedia palavra alguma sobre o olhar que se escondeu atrás das dunas, o segundo olhar, o que me rendeu dúvidas entre a confirmação ou o arrependimento. A moça, que já tremia um tanto quanto eu, fechou os olhos e os abriu com rapidez, e demoramos mais ainda nesse embaraço. Os lábios chegaram a se tocar muitíssimo brevemente, nada que podia ser considerado um beijo, nem quase beijo, nem beijo involuntário, nem beijo algum. Fato este que fez Monise, com um movimento arrebatado, separar-se de mim com um empurrão e um gemido fraco e breve (com força de mais pra uma menina). Dessa forma, separamo-nos e fiquei eu a ver o cenário do lado de dentro da cabaninha por um rombo da porta velha, na mesma posição onde estava a segurar a mão da sardentinha; esta caminhou até próximo ao banquinho (onde nós outrora sentávamos), aturdida pela situação embaraçosa, talvez estivesse sentindo medo, ou estava envergonhada, só sei que alguma coisa sentira. Monise cortou pela raiz a minha euforia, – fato que me fez voltar o tremendo frio, – e aumentara a minha dúvida. Monise finalmente falou-me:
― A chuva cessou, Leonel, você já pode ir.
Não a respondi, nem sequer me movi, só escutei com tremenda decepção as palavras da moça atormentada, como se tivesse visto o diabo ou qualquer outra coisa que lhe metesse medo. Voltei-me a moça; estava ela de costas pra mim, com as mãos cruzadas e com a capa de chuva por sobre os ombros. Nesta hora senti vontade de falar-lhe tudo o que ela me causou, desde a promessa até a febre; mas fora eu medroso o bastante para ficar mudo. A moça me olhou por sobre os ombros e voltou a falar-me:
― Acho melhor que parta logo, teimoso!
Fiquei embaraçado com o “teimoso”, pois soou imperativo de mais. Dei dois passos até perto dela, queria eu tomar explicação pra aquele tom de voz, mas fui distraído ao ver um vulto se aproximar, que me fez frear os passos e me sentir alerta. Monise voltou-se para o vulto e abriu um sorriso esquisito, parecia ela conhecer o espectro que surgiu da escuridão, um homem com uma cabeleira ruiva, que aparentava ter uns trinta e poucos anos, vestido numa calça jeans mais surrada que o macacão dela, pés descalços, despido da cintura pra cima e com tralhas de pesca por sobre os ombros, trazia na mão alguns peixes amarrados num cipó, e na outra uma faca grande. O homem tinha aparência séria, quase medonha, o semblante era áspero.
― Vejo que hoje está acompanhada, Monise. Quem é o seu amigo?
Monise titubeou. Disse meu nome com a voz fraca e parecia intimidada pela voz grave e forte do homem. Voltando-se a mim, Monise me apresentou o senhor:
― Leonel, este é meu pai.
Eu apertei a mão e disse “muito prazer”, pra demonstrar boa sombra e disfarçar o medo.
― Você pegou muita chuva, rapaz? O que faz você aqui a esta hora?
Demorei formular uma retruca para aquele duplo questionamento, e acabei falando o mesmo que falei a Monise, outrora. Estava eu muito encabulado. O homem tinha a cara de mau, mas era aparentemente bem-humorado. Enquanto o homem me repetia às palavras de alerta do meu velho tio, vi, por trás dele, surgir mais duas pessoas: uma mulher que aparentava ter a mesma faixa de idade do homem (presumi que fosse a sua esposa); tinha os traços de Monise e era sardenta do mesmo jeito; era uma versão gasta da sardentinha; trazia consigo um balde de metal cheio de lagostas. E um garotinho ruivo e branquelo; trazia consigo uma pequena caixinha de madeira (presumi que havia dentro adereços de pesca).
Monise antecipou-se e foi logo apresentando a sua mãe e seu irmãozinho, com o mesmo acanhamento que apresentou o seu pai (era uma família de pescadores! Exclamava eu em pensamentos). Estava eu ali diante da família da mulher por quem me apaixonei... (sim, sim, estimado leitor, eu já podia dizer que estava apaixonado). Era uma situação muitíssima embaraçosa e engraçada ao mesmo tempo. Todos me cumprimentaram cordialmente e me encabulei mais ainda. A mulher notara e rui-se dizendo que as maçãs do meu rosto estavam vermelhas de acanhamento (todos riram, até eu). Monise mirava-me sem piscar os olhos, rindo-se; eu só a mirava de quando em quando, pois assuntava com sua família. Depois de uma breve prosa, o pai de Monise, interrompendo a conversa, disse-me que era hora de partir; apertou-me a mão, ― gesto repetido pela esposa e pelo filhinho; ― Monise foi a última a se despedir, e, diferente dos outros, em vez de me apertar a mão, deu-me um abraço e disse baixinho ao pé do ouvido: “cuidado pelo caminho, eu não quero que lhe aconteça nada de mal antes que eu te fale o significado daquele segundo olhar.”




Relevem os "errinhos" e os "errões" deste texto, não o corrigi devidamente.


No próximo post: A VOLTA PRA CASA

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quase Delírio (PARTE QUARTA)

São Luís, 01 de setembro de 2009


O CESSAR DA CHUVA MARCOU O INÍCIO DO ALERTA; a chuva parou, e estava se aproximando o momento de eu fazer o caminho de volta pra casa; minha mente estava em conflito moral ― Ora, só de imaginar a vergonha que sentiria ao chegar a casa, caso os velhos estivessem acordados. (Sabe-se lá se a polícia podia estar a minha procura ou coisa parecida). Seria eu o culpado por qualquer eventualidade desventurosa. Suportariam os velhos o baque de uma má notícia do sobrinho recém-chegado? Se fosse eu vítima de uma atrocidade qualquer? Pobres senis. Minha tia, velha reumática e cardíaca; meu tio velho, demasiado velho. A minha integridade física nunca fora colocada em tamanha evidência a mim quanto nesse momento... Não muito por minha preocupação, mas as dos tios. Lembrava-me, de quando em quando, com tremendo desconforto, das palavras do meu tio a me alertar. Preocupei-me verdadeiramente com a saúde dos anciões. Tardou a chegar por completo a minha lucidez, e chegara junto o medo... Nesse momento senti medo. Encontrava-me numa situação de guerra e paz nos meus pensamentos. A aflição era, porém, bloqueada por um alento maior e de difícil explicação... Devo dizer que com facilidade suportava aquela aflição que me causava a situação, pois estava ali, diante de mim, com o olhar vigilante e fixo, com postura supinamente séria: Monise; que revelara os cabelos longos que antes se escondia por baixo da capa de chuva, e olhava-me de quando em quando com olhos de leoa a vigiar o seu filhote: eu, um tamanho macho, ― trêmulo e inquieto ― exposto ao frio e ao relento. Confesso que me sentira menos macho nesse instante, pois estava eu tremendo debaixo das vestes úmidas enquanto a fêmea se comportava como líder do bando.
Tive com ela todo esse tempo; mas, envergonhado, não conseguia sequer falar; receava mostrar-lhe a minha voz fragilizada pelo tempo frio (bastava-lhe a roxidão dos lábios e o tremelique do corpo). Tinha vontade de perguntar sobre ela, mas a moça era séria e não mostrava interesse por diálogo. Monise pôs uma das mãos estendida para avaliar o nível da chuva, que de fato já havia terminado; olhou firmemente para a torrente formada ao pé da cabana, voltou-se pra mim e despindo-se da capa de chuva falou-me “Demorou a passar essa chuva” ela disse também outros pormenores sobre tempo e chuva enquanto eu permanecia sentado no baquinho velho. Por baixo da capa de chuva, Monise vestia um macacão jeans surrado com colarim dobrado até o meio das canelas e uma camisetinha branca por baixo; os cabelos avermelhados e lisos eram escorridos por sobre os ombros sardentos (sardentos como o rosto). Monise ― silenciosa e sombria ― se movia lentamente a minha frente. Minha contemplação já era notável a ela, pois ela curvava o seu olhar rapidamente a toda vez que encontrava o meu, que perseguia o dela. Monise sentou-se junto a mim no banquinho, pôs as mãos em descanso e cima das coxas e hesitando me perguntou.
―Você parecia concentrado ali próximo ao mar; o que fazia ali sozinho?
Revelar a resposta para essa pergunta era pra mim mais difícil do que tirar forças pra não tremer a voz. Como eu poderia falar ― assim de cara ― que estava eu lá por causa da promessa que fiz outrora a ela? Seria isso a centelha para um a série de revelações, pois teria que lhe falar do desconforto que senti na tardinha, da fuga, da febre... Tudo por causa da moça que se insinuava no olhar de outrora. Enquanto eu demorava a responder, Monise me olhava com um aspecto curioso (levantou as sobrancelhas e enrubesceu a testa como se estivesse esperando sem paciência). Mas, do fundo dos pulmões, surgiu uma resposta minha.
― Eu contemplava o panorama; estive aqui ontem, me encantei com o lugar e senti vontade de vir hoje. ― Com uma dúvida estampado no rosto, Monise voltou a me questionar.
― Não passou pela ta cabeça o frio e a tremedeira que ia sentir com essa chuva fria? Devo confessar-lhe que tu és corajoso, pois...
Interrompi-a dizendo:
― Foi uma promessa!
― Promessa?
―Sim, uma promessa. ― Observando com espanto o rosto de monise continuei ― Prometi que voltaria a visitar a natureza e os navios, e tratei essa promessa como uma dívida.
Mal podia saber o que se passava na cabeça da moça ao meu lado depois de tal revelação; eu só sei que na minha, ao omitir que a promessa fora também para ela, sentira uma enorme vergonha de mim próprio, senti-me menos macho do que eu era a pouco. Enquanto eu tremia vendo a moça séria, sentia um vazio maior que o desconforto da tardinha, e numa tentativa de atenuar esse cálice, tratei de mudar logo de assunto:
― Você me perguntou se eu não era daqui porque eu contemplava o mar sentado numa pedra, pois as pessoas desse local não mais fazem isso; mas e você; você demorou um tanto quanto eu a contemplação, e creio e que você é daqui, pois me alertou da periculosidade.
― Eu moro aqui desde que nasci, mas sempre contemplo esse lugar com os mesmos olhos de criança, diferente dos outros que se limitam ao trabalho.
Nessa hora Monise se levantou e se pôs no vão de uma porta velha e lá ficou parada olhando para um ponto que não me fiz perceber, eu só sei que me levantei com dificuldades (Permanecera eu muito tempo numa posição) me pus defronte a sardentinha, controlei-me para não tremer e fixei meus olhos atrevidos nos afugentados que era os dela. Como se vencida pelo cansaço, Monise fixou os olhos nos meus, demoramos no mirar até quando ela quebrou o silêncio falando-me sem tirar os olhos dos meus:
― O que tu queres ver com esse olhar bastante atrevido? (Atrevido! Atrevido! Ela é perita em leitura de olhares, presumi em pensamentos) Eu, num movimento muitíssimo rápido, olhei para a boca de lábios rosadinhos e cheios, e voltei para os olhos.
― Eu quero ver se de perto eu descubro o significado daquele olhar de ontem; aquele que se escondeu por trás das dunas.
Com efeito, depois de ter falado o que eu temia falar, senti-me descarregado da culpa e um alívio que, como uma onda de calor, me confortou de tal forma que poria aqui se soubesse distinguir e se não tivesse as mais ridículas comparações em mente... Enfim, voltemos à reação de monise: Os olhos voltaram a ser fugitivos, as mãos esconderam-se no bolso do macacão. Notara eu que a moça fora pega de surpresa. Permaneci na mesma posição sem mover os olhos para outro sentido. Passavam-se mil coisas pelos meus pensamentos, e uma era que, nessa altura, ela já sabia que além dos navios e da natureza, a promessa fora feita a ela também. Então, pra ela, muito de mim já se lhe revelara. Mas a resposta demorava e o tempo passava com velocidade. Monise finalmente voltou a me fitar, os lábios fizeram menção de se separarem para dar passagem à voz, mas a menina de macacão jeans hesitava. Eu a toquei na mão (forte e bronzeada, típico de quem mora na praia) com a minha (Branquíssima e consideravelmente frágil para um rapaz de dezenove anos) ela soltou um suspiro e quase falou alguma coisa, mas freou-se, e logo fugiu novamente o olhar. Eu, ainda “suficientemente” medroso e tímido, movia-me pra mais perto dela, mas só que numa velocidade diminuta, comparável a o ponteiro menor de um relógio, o que marca a hora. Demoramos nesse impasse que eu confesso que era bastante agradável a mim, pois eu já chegara num instante que eu podia sentir o cheiro de Monise; era um cheiro desconhecido pra mim, mas confesso que fora o melhor instante que estive com a sardentinha até então, pois a mistura de mulher e praia que adentrava agradabilississimamente as minhas narinas (podia eu chamar esse momento de delirante) fez-me esquecer por hora jasmim, lavanda, rosas, perfumes de francesinhas... Era um cheiro que não sabia eu nomear, mas era o mais deleitável que eu senti na vida. Monise voltou o rosto pro meu que já estava por de mais próximo ao dela; neste instante ela me olhava com os olhos caídos como se tivesse febre; eu segurei mais forte a sua mão (ela ofegava) e finalmente quebrei a falta de diálogo cobrando a resposta da minha pergunta, já com os narizes se tocando...

CONTINUA

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Quase Delíro (Cont) Parte 3

São Luís, 26 de agosto de 2009

ANTES QUE EU PUDESSE CRIAR CORAGEM e virar pra ver a dona da voz, observei a onda saindo da bruma e cobrindo novamente meus pés e parte da canela; o frio da água, com o frio das gotas da chuvinha e com o frio do sangue, congelou a coragem de me revelar o rosto espantado. A voz repetira o “olá” seguido de “o que faz ai sozinho?”.
Num súbito giro ligeiro desatolei o pé da areia meio desajeitado e, sentindo um enorme acanhamento, me pus frente a frente com a tal moça dona da fala, que ria disfarçadamente da minha atrapalhação. A moça de capa de chuva amarela revelava somente os pés descalços e o rosto; com um sorriso desembaraçou-se de um pequeno gracejo para um hilariante rosto risonho, advertiu-me do perigo que era andar por aquelas redondezas num estado de tempo tão medonho, e fez esforço pra não soltar, junto com as palavras, risos. Intrigara-me o motivo de tanto alegria daquela moça a minha frente, a sardentinha dos olhos grandes; ria-se como se estivesse a apreciar um teatro humorístico, divertia-se as custa da minha atrapalhação, e não evitara o contrair dos lábios rosados e vultosos numa sonora risada. Fixei o olhar, atinado, nos olhos castanhos escuro da moça risonha a minha frente; esta se percebeu em um separado momento de descontração, mudou subitamente o semblante, corou as maçãs do rosto, e percebeu-se em incoerência, envergonhara-se, uma vez que não surgira em mim nenhum senso de humor. O chuvisco caia sobre mim e sobre a capa da moça – fato que produzia sons de estalinhos. Com o aspecto preocupado, serenamente, a moça falava do meu aspecto de espanto “Seus lábios estão arroxeados, faz muito tempo que você esta ai sozinho?” eu a respondi com um aceno de cabeça positivo (trêmulo da cabeça aos pés); a sardentinha franziu a testa e mostrou-se assustada com a resposta positiva “você deve não ter ciência de quanto é perigoso andar por aqui...” enquanto a moça advertia-me, estudei por tempo a sua feição e a interrompi com a voz arrastada e trêmula “engraçado eu ser persuadido de periculosidade por uma mulher. E você, o que fazes também sozinha? Aqui não é perigoso?” a moça fez cara de insultada e soltou um riso debochado enquanto virava o rosto de lado e me respondeu com outra pergunta “deixa-me adivinhar: você não é daqui, certo? Com aceno de cabeça respondi que sim, preferi responde-la a cobrar uma resposta; a moça estendeu-me a mão “como eu pude ser tão mal-educada... Permita-me que eu me apresente, meu nome é Monise.” eu também estendi a minha mão gelada e trêmula “Meu nome é Leonel, muito prazer” depois de nos apresentarmos, por um tempo, sentindo parar o chuvisco, quebrei o silêncio que pairava entre mim e a moça cobrando-a resposta para a minha pergunta que fizera a pouco “você não respondeu a minha pergunta, Monise” a moça hesitou, talvez demova a organizar a memória – nesse momento ela foi salva pela chuva que caiu subitamente e com muita força. A moça me pegou pelo braço e me puxou; com pressa, disparamos a correr; os meus sapatos faziam um barulho de chacoalho e eram pesados; a jaqueta e a calça jeans molhadas me davam uns cinco quilos a mais; fazia eu muito esforço pra correr com o mesmo rítimo daquela garota de capa de chuva amarelo e de pés ligeiros como as de uma cotia.
Já era noite e corria eu pela penumbra, debaixo de uma chuva medonha com uma estranha. Veio-me a lembrança dos meus velhos tios, uma forte adrenalina me fez subir um frio na espinha; os velhos, obviamente, suspeitaram da minha fuga e sentiam-se desesperados por conta da preocupação, enquanto eu estava correndo na chuva, sendo levado por uma garota, por uma caminho estranho, a uma cabaninha estranha e escura que me veio a vista.
Adentramos num chalezinho velho e com cheiro de madeira molhada, eu sentado num banquinho velho e a moça em pé olhando a chuva; dessa forma demoramos sem dialogar, apenas ouvindo o som da chuva o os estrondos dos trovões. Monise notara o meu desconforto causado pelo frio e pelas vestes úmidas – tremia eu incessantemente – e dirigiu-se até perto de mim; eu, ao pé dela, falai-lhe antes que ela falasse “estou com muito frio” e ela repetiu o sermão “você não deveria ter saído de casa nessa chuva, aliás, você mora onde?” eu a respondi igualmente como ela me respondeu outrora uma pergunta: com outra pergunta “por que me perguntaste se eu não sou daqui” ela ignorou a pergunta e falou da chuva “essa chuva que não para...” eu a interrompi com um “por quê?” num tom tão baixinho e aveludado que mais parecia que eu estava implorando uma resposta, ela, abaixando capuz da capa de chuva, respondeu-me “pessoas daqui não mais contemplam a praia sentado na pedra da forma que você estava ontem.” Nessa hora eu senti um enorme frio no estômago, pois estava, sem dúvida, diante da moça que me causou febre, da moça que me tomava os pensamentos, que me causara desconforto na chegada da tardinha; a moça de capa de chuva amarela e pés descalços, a sardentinha, a Monise. Demorei a contemplar o rosto sarnento e sério de Monise, e mal notei o cessar da chuva...

CONTINUA


Roberto:
"Não reparem nos errinhos, este texto não fora devidamente corrigido.
Olhos cansados!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Quase Delírio (Cont.)

São Luís, 20 de agosto de 2009


O RELÓGIO CONTAVA 08h19min QUANDO ACORDEI sentindo frio; levantei-me num sobressalto e, confuso, dirigi-me até a janela que estava entreaberta. Pela brecha olhei a névoa que se apresentava como uma má notícia e esbranquiçava todo o panorama a minha vista.
Planejara no dia anterior, fazer um passeio na praia no período da manhã, mas fazia frio demasiado e a bruma era por de mais espessa – não podia eu ver três metros a minha frente.
Deixei o quarto e, acompanhado pelos meus velhos tios, fui tomar café. Enquanto enchia a xícara e cortava o pão, ouvia a conversação que fluía entre os senis: “Parece que hoje vamos ter um dia daqueles, disse o velho, não demorará pra que os jornais nos deixarem alertados sobre o perigo que trás a névoa; ultimamente têm-se notícias de vários furtos e assassinatos por estes lados da cidade.” “Já deveria ter trocado as fechaduras, meu velho – disse a velha – todo cuidado é pouco para a segurança da casa. Ainda bem que fizemos compras ontem, pois eu não arredo o pé de casa hoje, tenho muito medo de delinqüentes (...)”

Fiz-me atento a conversação e entristeci-me com a situação do tempo, pois planejara reencontrar a todos quem eu prometi voltar quando no passeio de outrora pela praia: “Voltarei amanhã, Natureza. Voltarei amanhã, navios. Voltarei amanhã, moça. Amanhã.”Senti-me angustiado por toda a manhã, pois o fato de não poder cumprir a promessa de voltar à praia me causava tristeza e desagrado. Passei o horário de almoço perto da janela de vidro, na sala, vendo um fino chuvisco se apresentar.
Enquanto os pingos de chuva embaçavam a vista da janela e trazia com ela mais angustia a minha pessoa, eu refizera, em mente, o passeio de outrora; como um sonho: vieram-me as imagens que se via de cima das dunas naquele momento: as silhuetas dos navios no horizonte distante; o contorno das pessoas que por lá passavam; a moça sentada na areia (Ah! Aquela moça).
À tarde assuntei com meu velho tio coisas sobre o tempo e periculosidade. O velho falou-me dos crimes que em dia de névoa aconteceram ali perto e outra série pormenores que não porei no texto pra não alongar a escrita.
Importunara o tio com vários questionamentos.
A velha trouxe biscoitos e chá pra mim e para o velho; éramos quietos enquanto ceávamos. Depois de uma longa pausa, meu tio alertou-me do perigo dizendo-me que melhor seria que eu ficasse em casa neste fim de tarde, pois dessa forma estaria eu em segurança. Tal coisa dita pelo velho me deixou entristecido. Como poderia eu quebrar uma promessa tratada como dívida? O que pensariam de mim os navios? Perdoar-me-ia a natureza? E a moça (A moça! A moça!) que já era dona dos meus pensamentos, perdoar-me-ia?
Senti-me destroçado. O tédio chegara junto com o fim de tarde. Deixei meus tios avisados de que me recolheria mais cedo ao quarto; iria me distrair em leitura, uma vez que não podia sai de casa.
Sentado na cama, olhei e torno de mim e nada vi pra que me pudesse distrair; logo a angustia de ser um mentiroso, a dor que me causava a o desapontamento da natureza para comigo, e o desprezo da moça, consumia-me os pensamentos; nada poderia me curar da aflição que sentira.
De súbito, depois de mirar por muito a janela, veio-me a idéia de fazer tal passeio em segredo. Foi o que fiz sem hesitar. Com poucos minutos eu já estava cruzando as ruas dos enormes casarões que se escondiam atrás de muros longos, com as roupas e os cabelos umedecidos pela chuva fina. Cruzara a avenida já encharcado e, enfim, as dunas. Caminhava eu, lentamente, por sobre a areia molhada. Do alto das dunas, com dificuldades, só enxergava névoa. Difícil era ver o horizonte, só se escutava o barulho das ondas. O frio aumentara e eu não conseguia me locomover a outro lugar, permanecia nas dunas sem esperança de ver alguém por perto.
Os navios eram escondidos na bruma; a natureza era camuflada na penumbra que chegava com a tardinha; a moça... Ora, a moça não teria uma infeliz idéia de passear naquelas condições de tempo. Só um louco que caminha como um errante atordoado por uma promessa que caminha pelas ruas em meio tanta neblina, desafiando o perigo. Afastei a manga da camisa e olhei o relógio que contava 17h52min, tornei a cobri-lo e suspirei.
Tido como um louco por mim próprio, atordoado, fiz, com dificuldade, uma descida duna abaixo até a praia. No caminho, avistei a pedra onde eu sentava outrora; e, a alguns metros dali, o lugar onde sentara a moça, vazio. Sem conseguir meditar por perturbação causada pela aflição que me causara a revolta de não vê-la, caminhei até chegar a um ponto onde eu podia ver o quebrar das ondas; deixei-me molhar os sapatos e pus-me a meditar: “Só tu, natureza, fez-se presente a mim em meio tanto frio e tanta bruma, e com tuas águas alegrou-me a tocar meus pés.” “Ó Moça que me causou febre, será mesmo que aquele segundo olhar significou o arrependimento”? “Pois se for bem verdade isso que me atormenta...”
Cessei a meditação, pois fui interrompido por rumores de vozes atrás de mim. Um estranho sentimento me dividia entre o medo e a ansiedade. Eu era paralisado como um espantalho e me fiz cauto a filtrar os sons que se misturavam: o quebrar das ondas e as vozes. Permaneci na mesma posição e notei que as vozes cessaram; somente o mar produzia sons nesse momento. Durou o ócio. Inesperadamente senti um toque no meu ombro e um "olá"; era uma voz feminina...



Continua

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Quase Delírio

São Luís, 15 de Agosto de 2009



O passeio

AQUI é tão ruim pra você, sobrinho ― disse minha tia velha enquanto cosia sem tirar os olhos da agulha ― não há pessoas da sua idade pra conversar. Entristeço-me ao ver-te ai, desanimado. Por que não vai até a praia? Vá, meu filho! Caminhar um pouco pode ser uma boa distração.”
Dito isso, o velho, sentado na sua poltrona, ouviu a proposta da velha para com o sobrinho e fez gesto de aprovação com a cabeça, enquanto o fumo fazia passagem por entre os lábios e dava peso na atmosfera da sala. A princípio, achei péssima idéia fazer uma caminhada até a praia, aliás, sozinho, seria triste o bastante pra aumentar minha angustia de estar entre pessoas velhas e silenciosas. Mas entre ficar em casa vendo o velho tio lê jornal e fumar cachimbo e a velha tia coser, optei por ir a praia sozinho. Ao sair de casa, fiz uma serena caminhada ― A distância entre a casa dos velhos tios até a praia não era o suficiente para causar dor nas pernas; quiçá, meditar. Durante a caminhada, andei por ruas estreitas, arborizadas. As casas eram, em maioria, escondidas por trás de grandes muros. Cruzei duas largas avenidas e, finalmente, cheguei à praia. Ao contemplar o mar, mudei, subitamente, o juízo de que seria uma viagem perdida e sem bel-prazer; logo, o cenário a minha frente era-me deslumbrante (Quiçá o mais da minha vida): O mar era sereno e alaranjado por causa dos raios de sol que perfurar uma enorme nuvem, como enormes flechas ― fato este que formava uma coisa que a arte tenta retratar: um espetáculo de luzes e sombras ― as silhuetas dos navios enfileirados no horizonte longínquo; o contorno das pessoas que caminhavam a beira-mar. Durava a minha contemplação de todo esse panorama. Meu olhar se dividia entre o pôr-do-sol, os navios e uma moça que, a uns cinco metros de mim, estava sentada na areia. Esta parecia admirar também o que eu apreciava, sem se importar com o vento forte a agitar freneticamente os seus cabelos. O tempo passou mais rápido do que o vento. Chegara o crepúsculo quase sem eu perceber; e, junto com ele, o alerta. Levantei-me da pedra na qual estava sentado. Despedi-me, em pensamentos, da natureza, dos navios e da moça que ali permanecia quase imóvel, se não fosse pela agitação dos cabelos. Assegurei-lhos voltar: “Voltarei amanhã, Natureza. Voltarei amanhã, navios. Voltarei amanhã, moça. Amanhã.”Fiz menção de caminhar, mas a moça se fez notável a mim quando, subitamente, levantou-se, separou a areia do corpo e passou as mãos pelos cabelos. Parei para contemplá-la por mais alguns instantes. A moça, antes de ir embora, fitou-me por sobre o ombro, retirou rapidamente o olhar e seguiu caminho a ir-se embora. Com o olhar fixo, observei, por todo seu percurso, a jovem que sumia em meio a penumbra da tardinha. A moça, antes de sumir por completo, antes que eu curvasse o olhar, fitou-me novamente ― desta vez, ao contrario do primeiro, o olhar era demorado ― deu dois Passos e por fim sumiu por trás das dunas. No caminho de volta, amargurei um vazio que me trazia a dúvida e a saudade. Triste pela falta de costume de andar só. Enquanto caminhava, meditava: “Talvez aquele primeiro olhar da moça fosse uma promessa de voltar. Talvez aquele segundo olhar (Ah! O segundo olhar!) fosse à confirmação ou o arrependimento.” Antes de pegar no sono, em pensamentos, agradeci a minha velha tia.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quase Beijo

São Luís, 20 de Junho de 2009


Num banquinho, do lado de fora da classe, assuntávamos Ângela e eu. Ela me contava coisas sobre o falecimento de um primo, sem me dar chances de falar-lhe o que eu queria:

“(...) Ah! Quando se morre uma pessoa querida... Eu disse uma pessoa querida? Pois bem... quando se morre uma pessoa muito querida, eu não faço nada além de chorar. E sempre têm aquelas pessoas que tentam me consolar das piores formas do mundo: uns dizem para cessar com choro e ser forte. Como ser forte numa ora dessa tão triste? Como evitar o choro se o coração, num momento desses, parece bombear, além de sangue, lágrimas? Lágrimas como se fosse sangue que entorna pelos olhos e escorrem, escorrem... Outras pessoas dizem: „meus pêsames‟. Pêsames! Pêsames! Pêsames! Esta palavrinha! Ô palavrinha! Não sei por que soa horrivelmente nos meus ouvidos; em vez de me consolar, me causa vertigens. A cada vez que uma pessoa se aproxima de mim, torço pra que não me pronuncie tal palavra, porque receio ouvi-la. Por que não simplesmente me abraçam, em vez de me trazerem lenços? Por quê? Acho que ...”

Dei pouco crédito ao que me falava Ângela, confesso. O fato de estar ao lado dela, de está fronte a fronte (quase beijo), chamava-me mais a atenção do que o assunto de gente morta (mas que belo par de olhos tinha a mulher que me dirigia à palavra). Poder eu olhar a minha imagem nos olhos dela causava-me tanta distração quanto imaginar a imagem dela nos meus. O meu olhar era fixo nela; o de Ângela, pouco podia se atar em mim, afugentava-se muito, talvez por timidez porque notasse a contemplação namorada.

Eram, mesmo na morte de outrem, instantes de prazer quando estava ao lado de Ângela, sentia um fluido frio passar nas veias a cada vez que me olhava ou tocava-me as mãos. Lembro-me que nunca vira uma mãozinha tão bonita, talvez seja exagero dos românticos exaltar as mãos das mulheres; o fato é que os olhos se fecham para qualquer defeito feminino no passar gélido e avassalador do fluido. O maior desejo era que não findasse aquele momento onde até a agonia era coisa boa. Mas como uma hora perto da mulher amada equivale, relativamente, a um minuto de trabalho árduo, o tempo se fez tempo sem dar tempo ao tempo: havia chegado à hora de nos irmos, e nada fiz, nem sequer falei-lhe palavra, como as outras vezes em que assuntávamos. Não falei nada que mandara o coração e que os exigiam hormônios. Não sei se por medo ou se por acanhamento (pobre corpo, fraco e teimoso, se faz covarde a contragosto do coração e dos hormônios); só sei que nunca eu estava preparado para a saudade porvir e levava para o fundo do quarto todo o fardo de sofrer angustias e arrependimentos.

Ângela, como de costume, depois de tanto falar, despediu-se de mim com um velho conhecido sorriso malicioso; eu, por minha vez, correspondi com um aceno de mão e demonstração dissimulada de contentamento. No entanto, em meu coração, sofria com a aflição causada pela omissão das palavras de amor que me acovardara em dizê-las.

Quando num momento desses com Ângela, além de palavras de amor, acontecem, também, em pensamentos, beijos, carícias, visões sonhadoras do futuro...

Basta um minuto depois da despedida para estarmos por demais afastados. As palavras e os beijos que acontecem em pensamentos, mais tarde, se transformam em sonho, que se transforma em objetivo, que se transforma em quase beijo (Existe quase beijo?); que se transformam em pensamentos...
Assim se repetiu, por todo ano letivo, este ciclo defeituoso.
R. R. Almeida

terça-feira, 14 de julho de 2009

Lugares e Mulheres

São Luís, 14 de Janeiro de 2009.



ERA UM SÁBADO DE MUITO SOL, dia em que escolhi a casa dos avós paternos para repousar e meditar.
Sentei-me no terraço. Os Rouxinóis, que se apossaram da caixa do contador de energia, pulavam para dentro e para fora dela, e produziam um barulho não muito aborrecedor – ao ponto de não me fazer levantar da cadeira de balanço. O barulho dos rouxinóis se misturou com o choro do recém-nascido, na sala; e com o os roncos da vovó, num quarto mais distante. Concentrei-me nos barulhos em vez de perder a paciência; deixei de meditar, encostei minha nuca no rebordo da cadeira e, com o corpo inclinado pára trás, fechei os olhos. Depois de vários minutos de desocupação, pairou um silêncio: na verdade, havia eu adormecido; era um sono pesado.
Iniciou-se um sonho:
Imagens de pessoas e lugares faziam uma dinâmica numa velocidade absurda, que, demoradamente, perdia a rapidez. A celeridade descomedida das imagens que se alternavam me causou vertigens: era-me estonteante a procura por conhecê-las. Aos poucos, as imagens, enquanto desacelerava-se a dinâmica, eram-me cada vez mais familiares. Até que, depois da tardança, no instante em que as imagens já se moviam lentas, enfim, pude reconhecê-las por completo: Os lugares eram ruas de cidades por onde andei; as pessoas eram as mulheres da minha vida, pessoas estas que me fizeram relembrar muitas coisas do meu passado. Não consegui relembrar alguns nomes, mas as imagens eram-me inconfundíveis. Diante de mim encontravam-se cenários e pessoas dos grandes episódios da minha desconhecida história, figuras que jamais pensei que reencontrasse, mesmo que em sonho.
Quando, por fim, as imagens sumiram e deram, por alguns momentos, lugar a uma sediciosa escuridão (instante este que chamei ócio), interroguei-me da seguinte forma: “Qual das mulheres da minha vida será a mulher da minha vida?” Uma curiosa questão que não hesitei em responder-la: “Tomara que não seja àquela mulher da vida”.
Prevaleceu o negrume, e, pra minha tristeza, não voltaram os personagens do meu sonho. O sonho, sem as ruas e mulheres, era penumbra. Mas havia esperança em mim, pois esperava pacientemente um retorno que não aconteceu (não teria eu acordado se um feixe de luz do sol, que entrava por uma brecha no telhado, atingisse meu rosto, aquecendo-lho).
Despertado, enfim, pude eu ouvir novamente o barulho dos rouxinóis, que, incansáveis, continuavam a sinfonia desordenada de outrora; o bebê havia cessado o choro; a Vovó – meu Deus, a Vovó – continuava a estrondar roncos.
Levantei-me da cadeira, sonolento, e fui-me dali pra outro lugar qualquer; sentindo uma estranha euforia que me dividia entre a tristeza e o contentamento (triste porque uma mulher que teve no sonho já não se encontra mais no meio dos vivos; contente porque as lembranças dos lugares e das pessoas me despertaram agradáveis saudades).
Remédio nenhum poderia curar minha “agradável aflição” daquele momento, pois funcionaria a contragosto do meu desejo.
Depois de dar voltas pela casa, sonolento, meio trôpego, notável ao vovô, que tomava chá e lia jornal na sala de estar, resolvi dar fim a caminhada. Acabei voltando à cadeira de balaço. Meditava eu sobre o sonho que acabara de sonhar, com um lápis e um bloco de notas por sobre as pernas, e servido de uma xícara de café.