segunda-feira, 19 de outubro de 2009

QD

Caxias, 19 de Outubro de 2009
O Sacristão e o Maltrapilho

A VELHA TROUXE chá e biscoitos que tinha acabado de aprontar. Enquanto comíamos, Camilo falou aos velhos que dali a pouco iria pescar e me levaria junto; dito isso, o velho, com os olhos fitos em mim, não disse palavra, mas um sorriso pequeno e franco me dava a segunda ordem.
O primo caminhou pela casa uns instantes, enquanto eu deixei-me estar na sala de estar, aceso pela idéia de ir pra perto da mulher amada, de poder vê-la outra vez, linda e jovial como era, com a frescura expressada nas imaculadas maçãs do rosto, nos olhos lúcidos e ativos, na rigidez dos lábios, na cor de bronze da pele e no cheiro vivo de mulher.
Camilo sumiu pela casa e em poucos instantes apareceu trajado diferente do que se apresentou a mim, quando chegara: em vez de cores clássicas, as roupas tinham cores desbotadas; em vez de chapéu fino, um de palha, notavelmente velho, desgastado pelo uso excessivo; trouxe consigo os instrumentos de pesca, e agitou-se a me chamar, com entusiasmo pueril.

― Vamos, primo! Vamos! Vamos! Vamos! Vamos!
― Mas eu... Olha só você... Suas roupas... Eu vou sujar minhas roupas...
― Vamos! Vamos! Vamos!
― Antes eu vou trocar de roupas...
― Vamos! Vamos! Vamos! Disse ele puxando-me pelo braço, manifestando uma alegria que me deixou desorientado, não pude saber como reagir naquele momento. Camilo nem notou o meu embaraço, só me disse que não esperaria nem mais um minuto.

― Tem certeza que não quer a camionete pra ir até a praia, Camilo? Perguntou o velho, ―metendo o rosto na janela, ―quando meu primo e eu já andávamos pela rua. Camilo respondeu, com um gesto de cabeça que não faria uso do veículo e, voltando-se pra mim, disse que nada pagaria um passeio a pé até a praia, nem o conforto de um automóvel. Presumi, no meu universo privado e cheio de lacunas (a minha mente), que ele também tinha fortes motivos para fazer uma serena caminhada.
E foi assim que sai de casa nessa tarde: vestido como se fosse à missa e acompanhado por um maltrapilho. Embaraçado deveras, e não menos excitado.


CAPÍTULO 21
De volta a serena caminhada

ANDÁVAMOS a passos apressados. Eu fazia esforço para acompanhar o ritmo do primo, mas ele era energético por demais. Enquanto traçávamos o caminho, Camilo me ensinava mais coisas sobre as manhas de pesca. Nós já passávamos pela rua das casas de muros grandes, e ele de quando em quando me apontava uma casa e dizia o nome do respectivo dono. Falou-me também de alguns episódios da sua vida: o namoro com Luma, uma mulher mais velha; as brincadeiras do passado; a briga com um brutamontes, na qual venceu por causa da ajuda dos seus quatorze amigos... A cada lembrança, um suspiro e uma exclamação: “Que saudade desse lugar!”.
Foi assim que chegamos até as dunas.
Camilo, logo quando viu o mar, desceu correndo duna abaixo. Com habilidade, não deixava que os equipamentos de pesca caíssem dos ombros. Eu desci lentamente, cuidadoso, ouvindo os gritos do primo a me apressar. Ele já caminhava pela areia solada em direção ao mar; eu deixei-me ser lento, pois observava com atenção o cenário dos encontros com Monise, com muita excitação interna. Na praia, somente eu e o primo. Meu olhar era dividido entre a pedra em que sentei, na cabana ― ao longe ― onde tive com Monise por muito. Procurava rastros da sardenta, mas não a vi. Senti uma ponta de decepção ao ver o cenário em que vi pela primeira vez a moça por quem sentia febre, vazio como... Somente a natureza era presente, e nem rastro da moça. Deixei-me estar ao pé da duna, com os olhos no chão, olhando somente para a nuvem de areia que voava rasteiro por sobre o solo.


CAPÍTULO 22
Serena, mas triste

CAMINHEI em direção ao primo, que deixou as tralhas na areia e foi ter com o mar, imergindo soberano, furando as ondas com muito entusiasmo e nadando energeticamente. Eu sentei-me numa pedra e suportava com paciência a corrente de areia tocar minha pele com força. Camilo se retirou da água, despiu-se da camiseta encharcada, juntou os equipamentos, passou a mão pelos cabelos longos. ― Vamos, disse este, temos que alugar um barco.
Levantei-me sem dizer palavra, apenas concordei com um gesto de cabeça.
Camilo apontou para o lado onde seguiríamos a caminhar, era o lado oposto do encontro citado no capítulo anterior; fiz semblante de desagrado, mas não fora notável ao primo, pois este não movia os olhos pra coisas de tristeza, só mantinha o olhar resplandecente na visão de um paraíso. Eu, acompanhando os passos longos do primo, olhava, por sobre o ombro, de quando em quando, o cenário que ia ficando pra trás.
Deixei-me esquecer um pouco a história triste do desencontro, e me fiz atento ao cenário que se passava em meu novo passeio por um lugar desconhecido, deslumbrante. O sol ainda mantinha-se vivo e seus raios derramavam-se por sobre a minha fronte triste. O vento trazia consigo grãos de areia que tocava a minha pele e a minha roupa, mas nada que me fizesse continuar a caminhar sem que meu corpo reclamasse. Camilo, como em todo o caminho, falava-me de coisas da praia, das pescas, mas não me fiz atento, pois a voz dele se misturava com o sibilo do vento e o barulho das ondas, e o que chegava aos meus ouvidos eram ruídos.
E foi assim que chegamos a um ponto onde podíamos enxergar algumas pessoas e alguns barcos, enfileirados ao pé de uma doca velha.


CAPÍTULO 23
Um encontro festivo

Camilo, minuciosamente, analisava os barcos; tinha um olhar tão crítico quanto severo, enquanto dialogava com os respectivos proprietários. Demorou, mas finalmente escolheu um, branco com vermelho, suficientemente grande pra duas pessoas, ou três; era um barco velho, mas, segundo o primo, era o que mais suportava os movimentos bruscos do mar, devido a sua largura avantajada. Ao escolher, Camilo fez um gesto de mão pra mim que quase não notei, e eu, aluado e distante, o retribui imitando o gesto.
Enquanto Camilo preparava o barco com tamanha desenvoltura, eu, intimidado pelos movimentos lúcidos e rápidos dele, analisava o veículo com os olhos leigos, mas com empenho dissimulado, pra disfarçar a inaptidão.
Uma voz chamou por Camilo, não estava tão longe o dono dela; os olhos do meu primo encontraram o feitor do chamado e, sem demorar, abriu um sorriso tão afável quanto aos que cedera ao velho, quando na sua chegada. Logo os meus olhos também encontraram a quem chamou por Camilo: era um rapaz branco, da mesma altura de dele, só que mais forte; olhos caríssimos; cabelos arrepiados e brevemente loiros. O rapaz não tinha barba, a fronte era lisa, o que lhe dava um aspecto jovial; vestia farrapos (assim como Camilo); a juventude se fazia viva pela pele lisa que era bronzeada. Eles se olharam por um instante, cada um com um sorriso, e os dois corpos não demoraram pra se juntarem num abraço. Foi um encontro festivo por demais. Camilo chacoalhava a cabeça do rapaz que se ria enquanto era “afetuosamente malhado”. O rapaz deu sonoras tapinhas em Camilo. Estava eu ali, tímido, diante de uma cena típica de encontro de amigos que não se viam por tempo. Presumi com precisão o significado daquele afetuoso encontro: eram eles de fato amigos que não se viam por muito tempo, e no diálogo que fluiu depois da agitada recepção, revelaram-se amigos de infância. O primo me apresentou ao amigo. Este me apertou a mão e me disse o nome...


CAPÌTULO 24
A chispa do insulto

...apertou a mão e me disse o nome:
― Júlio.
― Leonel ― disse enquanto mantinha os olhos fitos numa cicatriz assombradora perto do olho do rapaz.
O rapaz correu os olhos pelos meus pés até a cabeça; analisou minas vestes; com um ar de escárnio e reprovação soltou: “Você veio a pesca ou a missa?”
Eu, externamente cordial e internamente injuriado, respondi-o, mas não disse palavra, só deixei que escapasse um sorriso diminuto na canto da boca. Segurei lá no interno da minha bílis, uma retruca que pudesse, à altura, dar continuidade a anedota infeliz e sem decoro do rapaz com marca de mutilação perto do olho direito, mas preferi sair-me indiscreto e com um tênue quê de apatia.
Camilo percebeu-me em indiferença e tratou de mudar de assunto: propôs que Júlio nos acompanhasse; este, sem titubear, aceitou o convite.
Foi assim que seguimos viagem rumo a alto mar.
Em poucos instantes já estávamos por demais afastados da costa e perto de uma ilhota, onde Camilo soltou a pouco que era o seu lugar favorito pra pescar ― era uma ilha pequenina, porém, bela. A areia branquíssima contrastava bruscamente com o verde vivo da vegetação e com o azul-escuro do mar; uma nuvem de albatrozes se transportava de um canto para outro com se se alegrassem com a nossa chegada. Eu, inativo e quieto, sentado na parte dianteira do barco, olhava com olhos fixos para a ilha, contemplando a sua beleza. Acompanhava com cuidado o balanço do barco, que, de vez em quando, em movimentos súbitos, causava-me sobressalto. Enquanto isso, Camilo e o amigo preparavam as parafernálias de pescar, ao mesmo tempo em que fluía um diálogo seguido de gargalhadas e gesticulações bruscas; divertiam-se a fazer balburdia e a golear o rum que trouxera Júlio, num cantil.


CAPÌTULO 25
A lenha do insulto

O primo chamou-me a atenção me dizendo que os meus equipamentos estavam prontos, e que eu poderia já iniciar a pesca. Eu assustado com a idéia de operar aquelas tralhas, disse a ele que me divertia em ficar só olhando, mas Camilo pediu-me que tentasse, e eu negava, negava, negava... Foi só pela insistência do pedido que resolvi tentar. O rapaz, ― que ainda ajustava os seus equipamentos, ― de quando em quando, olhava-nos por sobre um novelo que mantinha nas mão e perto do rosto, com um sorriso malicioso nos lábios: presumi que se divertia à custa da minha falta de habilidade.
Camilo deixou-me na dianteira do barco e foi ter com Júlio; bebeu um gole de rum e acendeu um cigarro; pôs-se na traseira do barco e deixou-se estar por lá, com o rosto pro céu, como se oferecesse o fumo que saia dos pulmões a um Altíssimo que lhe olhava ― era um ritual bizarro. Enquanto eu, lutando contra os equipamentos, com as minhas mãos inábeis, forcejando os movimentos para parecer empenhado, vi Júlio capturar três peixes grandes (do tamanho de uma caixa de sapatos) num intervalo de tempo pequeníssimo. Camilo juntou-se a Júlio e lá também capturou vários outros, enquanto eu via muitos comerem a isca do meu anzol sem sofrer qualquer tipo de ameaça ― fato este que fazia Júlio rir-se abusivamente.


CAPÍTULO 26
O insulto

Camilo e Júlio degustavam sem moderação ao rum, pois já estavam notavelmente alterados: cantavam e gargalhavam, mas não deixavam de exercer com excelência o trabalho de pescar ― fato que me fez ter idéia de desistir da tentativa.
Já havia passado muito tempo. O sol já fazia caminho rumo ao horizonte. Camilo e Júlio deram fim à pescaria e apenas bebiam, cantavam; enquanto eu deixei-me estar na dianteira do barco, alheio a balburdia da dupla de bêbados.
Vi Júlio se aproximar de mim, trôpego; fitou-me e questionou-me dessa forma:
― Por que tanta tristeza, jovenzinho? ― disse com a voz notavelmente alterada, mas com um ar de deboche mais “apurado” do que outrora. ― Já sei, não pegou nenhum peixe há-há-há-há.
Observava eu os movimentos retardados do rapaz debochado a minha frente, sentindo o sopro quente de puro rum. Depois de arrotar e soltar um riso pequeno, o crápula disse-me:
― Tem sorte, branquelinho, pois se um peixe se prendesse no teu anzol, era o mesmo que botar a perder um equipamento tão bom, pois suas mãos são tão frágeiszinhas... Olha só pros seus dedos magros! Olha! Acho que uma sardinha teria força suficiente pra te levar pro fundo do mar. E suas roupas, onde comprou as suas roupas... Há-há-há-há.
Camilo o interrompeu com um tapa nas costas, depois o recomendou procedimento, mas não demorou pra que caísse também em risada.
Eu permanecia no mesmo lugar enquanto fazíamos caminho de volta pra casa; tolerando impacientemente à algazarra dos bebidos; enraivecido pelo escárnio do tal Júlio. Permaneci calado, com a cólera que fluía dissolvida no meu sangue, que me esquentava energeticamente por dentro, mas eu era externamente sossegado.
Ao chegar à costa, os rapazes que bebiam ainda eram alegrados pelo álcool: cantavam, trombavam de vez em quando nos próprios pés, gargalhavam. Júlio, de quando em quando, chamando-me “burguesinho”, repetia a mesma pergunta, com ironia: “quantos peixes você capturou, padrezinho?” Eu, calado e sério, ignorava o bêbado e seguia caminho; Camilo, com olhos de peixe morto, mal podia carregar a um balde que pusera os peixes, caminhava e não se fazia atento as provocações do Júlio para comigo.
Caminhávamos e direção às dunas, já era noite e a escuridão era traiçoeira, senti-me alerta como na noite na cabana com Monise; foi quando eu, por descuido deixei que caíssem as tralhas de pesca dos meus ombros; um anzol enganchou-se na barra da minha calça. Logo Camilo se dispôs a me ajudar; enquanto trabalhávamos juntos, empenhados em retirar o anzol da calça, Júlio ria-se e me chamava “branquelinho desastrado, bonequinha de talco, olhinhos de Cinderela”...


CAPÍTULO 27
O descarrego do insulto

Eu estava agachado, num trabalho árduo que era desprender o anzol da minha calça. Vi Júlio se aproximar. Este, ao pé de mim, repetia todos os insultos citados no capitulo anterior, e como não o bastasse, além de insultos, resolveu apressar-me, aos gritos, obrigando-me a suportar algumas espevitadas gotas de saliva que voava da sua boca até pousar nas minhas vestes ou no meu rosto. Mas quando senti a mão dele tocar meu ombro, eu, em sobressalto, levantei-me e me pus frente a frente com o bêbado, e em segundos o vi jazido ali na areia fofa, ao pé da duna, desacordado e sangrando abundantemente por uma brecha que se abriu no lábio inferior: foi um golpe seco, um soco bem metido. Arrancara eu uma força que estava escondida lá nas cavernas da minha bílis; a minha mão frágil sofreu um tanto quanto o lábio do pobre pescador, pois também sangrava, não com abundância, mas, em contrapartida inchou deveras.
CAPÍTULO 28
Acorda, desgraçado! Vá, desgraçado!

― O que você fez, louco? Disse Camilo, olhando-me assombrosamente, segurando meus ombros e chacoalhando-me com força?
― O que eu deveria ter feito antes... ― respondi ainda com a cólera correndo pelo corpo.
Camilo foi ter com o Júlio, pôs-se de joelhos ao lado do corpo estendido na areia e logo lhe deu tapinhas leves no rosto, a fim de reanimar o bêbado.
― Acorda, desgraçado! Disse o primo ao corpo que não o respondia. E voltando-se a mim: ― Depressa, dê-me a sua camisa!
Eu, parado e mudo, sentia muita dor na mão que socara Júlio e sequer conseguia despir-me da camisa.
De súbito, Júlio abriu brevemente os olhos e moveu os braços. Camilo, aflito e desajeitado, o pôs sentado e lavava o lábio do rapaz com que sobrara do rum.
― Vá pro alto da duna e me espere lá antes que ele acorde por completo ― disse Camilo num tom imperativo. Eu continuei imóvel, como se não ouvisse a ordem do primo.
― Vá! Gritou, mas eu teimava em ficar.
― Vá, desgraçado! Trovejou o primo. Era a fúria em forma de saliva que entornava da boca.
Rapidamente deixei-os e fiz exatamente o que Camilo ordenou. Em poucos instantes eu estava sentado por sobre as areias, do alto da duna, olhando o cenário escuro e vazio.


CAPÌTULO 29
Serena, triste e violenta

“Ora, ora, ora.” ― Dizia eu em pensamentos. Refletia eu sobre dois feitos inusitados da minha vida: a pescaria e o soco. Eu que estava lá só no intuito de ver Monise. A frustração me desolava. Nesse momento, senti um aperto no coração, pois era mais um dia sem ver a sardenta, e mais paranóia invadia aminha cabeça, tinha receio de pensar o que ela pensava, se ela também sentia o mesmo aperto no coração que eu sentia, ou se simplesmente não dava crédito algum a minha ausência. A cabeça, de tanto pensar, rodava como a dos bêbados, eu já estava aflito por demais, deitei o corpo na areia fria e passeia a contemplar o céu. Demorava a minha espera elo primo que ficou cuidando do bêbado machucado lá em baixo.
Fitei a mão que dera soco, inchada, ainda sangrava, mas pouco; refleti: “O que foi mais violento, os insultos do Júlio ou o soco?” Nesse momento, senti uma ponta de arrependimento, senti-me minimizado por mim próprio, pois pudera usar somente as palavras pra livrar-me do quem me importunava, mas, depois de ter feito uma serena caminhada, embora triste, resolvi, precipitadamente, usar a violência a fim de descarregar-me do ódio que pulsavam os meus nervos. Deixei de meditar por um instante, distrai-me ao ver um mocho, ― cuja brancura era destacada no escuro da noite, ― voar por sobre a duna e em seguida sumir no horizonte. Foi só o mocho perder-se no escuro para eu voltar a meditar, e como de praxe, veio-me, linda e jovial, o rosto de Monise pairar sobre minha mente.
Foi Camilo que me “salvou” do meditar. Ele chegou sério, trazendo consigo o balde com peixes e as tralhas de pescar, economizou as palavras, me disse somente “vamos embora.”
Senti chegar a culpa quando caminhávamos em direção a casa, pois Camilo, ao sai de casa, mostrava-se amável e supinamente alegre; mas na volta, mostrou-se longe, uma seriedade e um silêncio que me embaraçava, tudo isso visível no semblante áspero que mantinha. Minha quietude se misturava com a dele, e, em todo o caminho, só ouvia o chaque-chaque que fazia o chinelo do Camilo. Foi assim que chegamos até a casa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

QD (Dspeito amoroso)

São Luís, 09 de outubro de 2009

Despeito amoroso


CAMILO TIROU de uma mala, tralhas de pesca. Enquanto arrumava os anzóis e outras ferramentas, fazia questão de me dizer, com acendimento, o nome de cada uma e suas respectivas serventia. O velho veio ter na sala de novo, e viu os dois jovens entretidos numa aula informal de pescaria dada pelo sobrinho recém-chegado ao sobrinho “fujão”. Camilo, quando viu o velho ao pé de si, abriu um sorriso que vertia sinceridade; eu olhando aquela cena de pura afabilidade entre os parentes, também sorri, mas não exercia bem a arte de ser afável, sorri com tremendo esforço para parecer cordial. Talvez aquela cena patética me causasse embaraço; era brilhosa demais, ao ponto de não me fazer vidrar os olhos nos rostos demasiado alegres. “Demasiado alegres?” Ora, ai vem controvérsia, de novo: “Demasiado alegre” soa paradoxal. Existe alegria demasiada? Não é bom ter exorbitante alegria? Isto é, quanto mais alegria não é sempre melhor? Já ouvi esse disparate antes, foi dita pela minha mãe, quando numa briga com meu pai, e por ventura a usei nesse texto pra melhor disfarçar o meu despeito.

Numa briga, que era de praxe, minha mãe vociferava as verdades na cara do meu pai; este, adentrando trôpego em casa, ria-se, ria-se e ria-se, com uma garrafa pela metade de uísque e um copo vazio na mão. Meu pai, com a voz alterada pelo excesso de destilado na corrente sanguínea, falava: “― Você não diz sempre que quer ter paz nessa casa, mulher? Então, se eu estou rindo é porque tenho alegria, e quero compartilhá-la com você, meu amor! Há-há-há-há...”. Minha mãe trovejava xingos ao pé do ouvido do bêbado e depois se afastava dele explicando que aquela alegria vinha de fora de casa, que não era verdadeira, que era resultado das gradativas alterações da fisiologia... Ela dizia, aos prantos, todas as minúcias que ilustravam o efeito do álcool no organismo; e no final, já ajoelhada num canto do quarto, com as mãos cobrindo o rosto avermelhado e úmido, dizia ao meu pai, ou ao vento, ou aos móveis: “― Afaste-se de mim, demônio; e leva contigo essa alegria demasiada! Demasiada...”

O primo e o velho não estavam bêbados, é certo; era eu que estava com despeito. Como eu referi antes, usei essa expressão só pra melhor disfarçar de mim próprio o ciúme; mas tem outra coisa: eu também queria escarnecer o sentimento do moço para com o velho, mas consegui só ser um ciumento.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

QD

São Luís, não sei quanto de setembro de 2009

O primo Camilo

ERA POUCO MAIS DE TRÊS DA TARDE, a bruma sumira desde as onze da manhã, e o sol se apresentou, mas economizava calor. O clima era aprazível. Enquanto eu era distraído em leitura, próximo à janela da sala, notei uma aproximação que vinha do lado de fora; quando me voltei pro vulto que se fazia notável pelo barulho que produzia, a porta já estava se abrindo com o mesmo ranger de praxe. Não era visível a mim o que chegava, pois a porta me tapava a visão; mas era visível ao velho, numa poltrona mais distante. Foi tal vulto que arrancou a rabugem do rosto do ancião, colocou um sorriso afável e brilho nos olhos. O velho se levantou como um jovem e dirigiu-se até porta; de lá se ouvia lisonjas e mais lisonjas: umas partiam da voz arrastada e fraca do velho, e outras de uma voz nem muito grave, nem demasiada aguda, mas energética e cheia de sotaque. O velho fez companhia ao que chegava, e chamava a velha que estava preparando algo na cozinha. Vi, finalmente, o sujeito entrar: um rapaz de movimentos delicados; magro (não suficientemente caveiroso, mas nada que podia se chamar de atlético); o rosto fino, os cabelos cumpridos e o nariz afilado davam-lhe traços femininos, ― seria um rosto mulheril se não fosse à maxilar robusto e a barba por fazer (Eu disse a mim próprio, na mente, que era uma mulherzinha do nariz pra cima). Tinha boa aparência. Aparentava ele ter mais idade do que eu, pela altura e pela barba. Vestia uma roupa de cores clássicas, toda combinada perfeitamente com o chapéu marrom, que mantinha na mão pra fazer jus aos gestos de cortesia do velho. A velha chegou à sala com as mãos sujas de farinha de trigo, e se esquecera de tirar o avental pra receber o quem a visitava; abriu um sorriso grande quando viu o jovem, e encheu-lo de lisonjas, assim com o velho fizera. Eu deixei-me estar na mesma posição de quando lia. Observava aquela cena tocante com muita atenção. O jovem girou o corpo e encontrou-me no canto da sala, próximo a janela, sentado numa cadeira de balanço com um livro por sobre as pernas. Olhou-me com os olhos espremidos, ― como quem faz força pra enxergar.

― Venha cá, Leonel! Venha conhecer seu primo. ― disse o velho.

“Primo?” Cogitei na mente. Aquele ser de presença comemorada era parente. Procurava eu traços da família no rosto do jovem a minha frente e não descobri nenhum, nenhum. Apertamos as mãos e ele sorriu me dizendo o nome: ― Camilo.
Retribui o sorriso, mas com força tremenda, nem sei a dissimulação fora notável, só sei que os velhos olhavam os dois jovens com um sorriso de quem viu algo sagrado, talvez dois querubins iluminados. A tia voltou pra cozinha dizendo-nos que o chá não demoraria a ficar pronto, e fiquei em companhia do primo e do velho, na sala de estar.

― Como foi à viagem, Camilo? Perguntou o velho.
― Muito tranquila, tio; os ônibus continuam oferecendo conforto, os pinheiros continuam num verde incrivelmente bonito, e a estrada está muito boa. Não tenho o que reclamar. O velho disparou mais algumas perguntas que foram respondidas pelo jovem em palavras metricamente intervaladas. Depois de um tempo, quando viu que os jovens assuntavam coisas de jovem, o velho se retirou e disse que ia ter com a velha, na cozinha. O assunto entre mim e o meu primo fluía como se fossemos íntimos; agradou-me a desenvoltura do rapaz que me dirigia a palavra. Falava-me coisas da cidade onde mora, sobre a profissão, sobre pesca, sobre ser filho de um primo do meu pai, sobre mulheres, e sobre a uma festa que aconteceria no dia seguinte, motivo pelo qual veio à casa dos velhos. Falou-me que todos os anos, na transição do outono para o inverno, vinha só por causa dessa festa, pois morara nesta redondeza muito tempo, e era acostumado a ser presente todos os anos. Falou-me também que não se sentia cansado e que iria pescar, dali a pouco, que não via a hora de se meter no mar pra matar a saudade da sua terra e pra fazer o que mais gosta. Encheu-me de ânimo o primo; disse-me que me levaria junto e que me ensinaria as manhas de pescar, e iria pescar lá no mar, onde mora os meus pensamentos, ou o meu pensamento. Enquanto ele me falava dos lugares que iríamos, minha consciência me dizia que eu estava de castigo, mas eu era crente de que o velho não me ia fazer a desfeita de não me deixar fazer companhia ao estimado sobrinho dele, pois este tinha uma alegria tão sincera e bonita no rosto (que mais parecia uma criança quando no playground), que faria qualquer velho rabugento se tornar um anjo que toca lira e canta para acalentar criançinhas.
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Despeito Amoroso (no próximo)
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

QD (PARTE NONA)

São Luís, 25 de Setembro de 2009


O castigo

O TIO ESTABELECEU UM CASTIGO para o “fujão” (assim ele me chamava depois do feito aborrecedor), um castigo pueril, coisa que eu nem sequer bradei, pois lavar louça, cuidar do jardim, dar comida a um papagaio, lavar a camionete e outros pormenores, não me faria sentir tédio, eu até gostei dos trabalhos, só não gostei de quando ele me falou “E tudo isso sem ir a passeios na praia, até segunda ordem!”. Ai, leitor, esqueça que eu disse que não sentiria tédio, pois sem praia... E até a segunda ordem, por qualquer tempo que fosse, era muito. Tempo suficiente para eu sentir triplicar a culpa que sentia, pois Monise, se eu bem entendi aquela voz doce ao pé do meu ouvido, estaria por lá a me esperar, enquanto eu cá atribulado a lavar louças, a cuidar do jardim, a dar comida a um papagaio...


Dito e feito

DITO E FEITO: a culpa me consumia. E era passado só um dia de castigo. Nada de segundo ordem. Eu deitei a cabeça no travesseiro e pedi perdão a sardentinha; dormi com um aperto no coração, e acordei com a saudade no rosto que eu olhava no espelho do banheiro. Não se passava um minuto sequer sem que eu cogitasse o que Monise estava fazendo, se me esquecera, se sentia raiva, decepção, saudade... E já no segundo dia estava farto da solidão. À chegada da tardinha era pra mim motivo de tristeza, pois lembrava a minha serena caminhada pelas dunas. Eu nada fazia além de observar pela janela os movimentos da casa do vizinho e ouvir as conversações. Deixava-me estar no vão da janela a descansar os braços cansados de fazer as tarefas domésticas. Meus olhos eram fixos nos vultos da casa do lado; a cabeça, nas dunas. Com a chegada da noite, ia eu ter com os velhos até à hora do jantar. Ceávamos. Eu deixava-me estar na sala, quando os velhos se retiravam pra dormir. Folheava algumas revistas, olhava a rua pela janela da sala, sentava-me na poltrona do velho e fazia jus à tristeza olhando para nada, só para a imagem que era fixa nos pensamentos. E era triste assim, que eu ia direto pra cama.



O terceiro dia

Vi, pela janela do quarto, ao alvorecer, chegar uma neblina rala, pouco parecida com a do dia do último encontro com Monise. Fazia frio. Deixei-me estar na cama a meditar, até chegar à hora em que costumava levantar. No café da manhã, em companhia dos velhos, não fluiu assunto por tempo; mantinha o pensamento longe. Os velhos, de súbito, deram início a uma prosa, que não me fiz de interesse, nem se quer fazia questão de escutar os ruídos, pois eram sempre os mesmos assuntos, até parecia encenado. Depois do café da manhã a velha abria um armário, tirava as tralhas de coser e ia direto pra sacada se sentar na cadeira de balanço; o velho ia até a caixa de correios, tirava de lá o que tivesse, voltava pra sentar na poltrona e preparava todo o ritual de acender o cachimbo. Enquanto eu, sentado ainda a mesa do café da manhã, com olhos de vidro, mirava a xícara de café fumegante; enquanto isso uma mão segurando o queixo e a outra brincando com o pão. As tarefas do castigo eram feitas muito depressa, e bem feitas (segundo a velha); logo depois do meio-dia eu estava livre pra fazer o que quisesse, menos ir até as dunas.

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O primo Camilo (no próximo)

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terça-feira, 22 de setembro de 2009

QD (cont) PARTE OITAVA

São Luís, 22 de setembro de 2009


O esporro

DO FIM DA RUA, onde estava o velho Valdir, dava pra ver a outra rua, a casa. Eu caminhava lentamente, pelo medo e pelo cansaço. Estava eu chegando à casa junto com uma dor na cabeça, que se espalhava pelos ombros, costelas, espinha, até latejar nas pernas; chegava também um resfriado (o nariz escorria e de quando em quando espirrava). Um fluído incógnito fluiu pelas veias, senti algo parecido com adrenalina, ao ver a casa com as luzes acesas. Mas ainda havia esperanças em mim; até o fim podia acreditar que os velhos não tomavam conhecimento da minha fuga; mas tudo desmoronou quando vi a tia velha na sacada, sentada na cadeira preguiçosa ― não pude notar se dormia. Tive uma súbita idéia de desviar o caminho e entrar pela janela por que fugira, mas ouvi rumores na sala de estar; uma silhueta magra e lenta aproximou-se da janela, colocou rosto fora, e os olhos trêmulos encontraram os meus num instante; sério e fixo e um desapontamento estampado nas rugas e na rabugem da idade. Disse-me “boa noite” com a voz bem entoada, firme; eu o respondi com um espirro, e depois outro. ― fato este que fez a velha acordar em sobressalto. A velha tinha um ar pacífico, brando; mas não falara palavra (tive receio, pois desconfiava que debaixo daquela placidez houvesse uma raiva febril). Adentrei junto cm a velha; o velho tio fazia caminho da janela até a poltrona; retomara a posição de costume: pernas cruzadas e cachimbo na mão. A atmosfera era pesada na sala de estar por causa do fumo espesso que flutuava; presumi que o velho fumava com demasia, quando atribulado. Deixei-me estar num canto da casa, a vista do velho, tremendo, espirrando e molhando o piso de madeira com a água que escorria da roupa molhada.
― Você tem noção do que fizeste, garoto?
Aquele “garoto” soou com desdém; senti-me destroçado, pois sem sombras de dúvidas tinha eu causado fúria no velho, notava-se pelo tom da voz e pelo modo de balançar a cabeça.
― Você prometeu falar com ele só amanhã, meu velho ― disse a velha ― olha só o estado do menino (o “menino” me fez sentir mais infantil do que o irmãozinho de Monise); deve trocar de roupa imediatamente. Olha só como molha o piso! Vá, vá, vá, meu filho!. Enquanto isso eu vou lhe preparar um chá. Veja como espirra! Sorte sua se não adoecer feio.
Eu não tinha cara pra meter em nenhum buraco de tanta vergonha, enquanto a velha caminhava lentamente e o clima pesava; tanto que não falei palavra, e omiti toda a dor que sentia naquele momento. Fez-se o silêncio mais aborrecedor da minha existência. Deslizei da sala para o banheiro olhando para o tio, que resmungava baixinho e olhava para um ponto fixo que não me fiz saber.


Quem na cozinha medita?

LI UMA VEZ em um clássico da literatura: “Só as grandes paixões são capazes de grandes ações”. Não sei se correr atrás de uma promessa insana pode se encaixar no que o autor intitula “grandes ações”. Ora, grandes ações, cuido eu, equivale a belas ações, bem-feitas ações, aquelas que abeiram o êxito a cada ocorrência, até chegar o soberano golpe final, o que bate martelo, o que fecha conta, o que eterniza o mérito. Não os que te rendem esporros, resfriados, dores musculares e te deixam na penumbra da cozinha tomando chá em companhia de uma velha de olhos secos e de um ar assombroso. Porventura, lembrei-me de uma proposição do mesmo autor: “Quem escapa a um perigo, ama a vida com outra intensidade”. Querendo ou não, parte da minha vida tinha sarda e nome: Monise.
Por mais que uma parte da minha lucidez repetisse incessantemente ao meu ouvido “Amor prematuro! Prematuro! Prematuro”, parte da minha ‘maluquês’, com a boca suja e a cara limpa, retrucava “prematuro é o ‘caralho’”.

― Quer mais chá, sobrinho? Disse à voz que surgiu da penumbra, ao mesmo tempo em que bocejava.
― Não... Não... Obrigado, tia. Quero mais é ir pra cama.
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O castigo (No proximo)
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domingo, 20 de setembro de 2009

Qase Delírio (Cont)

São Luís, dia que não lembro de outubro de 2009.
No caminho, surge um certo Sr. Valdir

CAMINHAVA A PASSOS LONGOS, os braços cruzados, cabeça baixa, completamente dado ao medo. Eu estava na metade do caminho até a casa, e as palavras do velho tio soavam de quando em quando no meu ouvido, como assombros. O rosto de Monise voltou a minha mente, não como a dona dos meus pensamentos, mas como culpada pelo meu tormento.
“― Ès tu mesmo, Monise, a culpada! És tu! Tu! Tu!”, ― dizia na mente.
Metade de mim sentia medo, a outra metade sentia raiva. Insano, culpava Monise pela situação desagradável que então eu estava só porque aquele rosto sardento e jovial me fizera ficar por horas longe de casa, longe dos cuidados dos velhos tios, perto de uma febre e perto de um esporro.
Eu já passava pelas ruas das casas de muros grandes, ― já mais próximo da casa dos tios do que da cabana ― senti certo alivio, pois lá tinha boa iluminação. Mas o medo ainda era presente, os passos ainda eram rápidos, eu ainda delirava em culpar a filhinha de pescadores, com certo desdém, como causadora de toda a aflição (Arrependi-me de fazer pouco-caso da moça e rapidamente e voltei a ser o apaixonado). Num ponto alto da agonia senti tremer os lábios e murchar os olhos, e sem forças pra segurar o choro, os olhos molharam-se-me junto com a chuva; uma lamúria serena (esquisito é chorar serenamente, quando atribulado). Ao choro caminhava eu por cima das calçadas, eu já estava quase no fim da rua, quando avistei um senhor, aconchegada no vão de uma porta de uma das casas, coberto por um manto sujo e apenas o rosto a mostra. Segurei o choro pra parecer firme, desacelerei os passos e me fiz cauto olhando fixamente os movimentos do velho, que ainda não tinha me visto. O velho, quando me viu, estendeu-me a mão e resmungou algo que não entendi; eu continuei a andar fito no vulto.
― Hei, garoto! ― chamou-me o velho.
Eu, tomado de receio, aturdido pelo susto que tomara ao ouvir a voz forte e grave do espectro que se escondia no vão da porta, parei e me pus frente a frente com o mendigo.
― Você tem relógio? ― Perguntou o vulto com a voz menos volumosa e demonstrando boa sombra com um sorriso no canto da boca.
Hunrrum... Sim... Sim... ― ainda assustado, trêmulo, puxei a manga da camisa e informei-lhe a hora e fiz menção de continuar a caminhada, mas o velho me chamou a atenção outra vez.
― Espere! ― Disse enquanto saia debaixo do manto ― Por que não espera a chuva passar? Assim você me faz companhia. Olhe só pra você. Não tem medo de adoecer, garoto?
O velho não me esperou responder; com um gesto de cortesia e um sorriso sereno, puxou-me pelo braço e me pôs junto de si, no vão da porta. Estava eu no mesmo espaço de um mendigo, dividindo a penumbra, o teto, e os pingos espevitados da chuva grossa. Disse ao velho que não podia ficar porque já estava encrencado por demais pra demorar mais alguns minutos; mas ele ignorou o que eu dizia e me interrompeu apertando-me a mão e dizendo o nome ― Valdir. Disse pausadamente e nem quis saber o meu, presumi. O velho de poucos cabelos parecia não notar a minha angustia, continuava falando. Tinha os olhos sujos de remela e parte do corpo a tremer; era magro. Os pés rachados tremendamente sujos; as pernas tão magras que mal podiam sustentar o tronco, que mal podia sustentar a caveira; tinha mais orelhas do que dente. Era notável a pobreza do homem maltrapilho, mas não tirava o sorriso do rosto. Falou-me coisas sobre a cidade, sobre a época quando jovem, das duas filhas que não via há décadas, da esposa que falecera no parto da segunda filha, sobre uma casa na praia que fora engolida pelo mar, sobre a pobre infância em outra cidade, e sobre mais meia dúzia de suas desventuras que não porei aqui neste texto pra não alongar a narração.
Eu deixei-me estar com o velho tempo suficiente para ele me contar a poesia triste da sua vida dele, e eu bocejar três ou quatro vezes. Presumi, depois de um ato do velho, que não me pareceu lúcido, que ele caducava: ele olhou certo tempo à chuva e com o dedo indicador seguia alguma coisa que voava (coisa que só ele enxergava) depois se calou, fechou os olhos e disse algumas palavras com as mãos dadas.
― Agora tenho que ir, Sr. Valdir ― Disse, e deslizei-me com agilidade para fora do vão onde estava. ― A chuva não é mais aquela de agora pouco, já posso ir andando tranquilamente.
― Mas você se vai assim? Nem me disse seu nome.
― Leonel.
― Bonito nome...
O velho persistia em alongar a prosa, mas eu o interrompi.
― Sr. Valdir, tenho que ir, não posso ficar aqui nem mais um minuto.
― Por quê?
― É... Porque... Ah, Senhor, eu já lhe contei sobre minha aflição e minha encrenca!
― Certo, garoto... Quer dizer... Qual o seu nome mesmo?
― Leonel.
― Sim, Leonel, você se vai e vai me deixar de mãos vazias? Dê-me um trocado.
Eu, sensibilizado com o pedido do velho mendigo, revirei as mãos pelo bolso e com dificuldades achei algumas moedas.
― Toma, Sr. Valdir; não é muito mais acho que dá pra comprar algo pra comer.
O velho analisou as moedas e colocou-as uma por uma dentro de uma cuia que mantinha ao pé de si. Fitou-me, torceu o nariz, levantou as sobrancelhas.
― Comida não, mas fumo.
― Fumo?
― Sim. Fumo. Com esses trocados dá pra encher três vezes o cachimbo.
― Deixa de comer pra fumar?
― Não. Claro que não. È que com dinheiro pouco, compro coisa pouca, e se não dá pra encher a barriga, encho os pulmões. Meu filho, a vida é cheia de “esquisitices”, sobretudo nas dos mendigos; quando não posso dar a alegria ao estômago, dou-a aos pulmões, mas nunca deixo de fazer alguém feliz.
O velho riu brevemente e me agradeceu.
Deram-se fim as minhas dúvidas; aqueles olhos não eram lúcidos, o velho caducava; nunca ouvi um provérbio mais atroz do que este.
O papo com o velho demorou o que a chuva acalmasse. Pus-me a caminhar; deixei o velho a se cobrir novamente com o manto sujo.
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O esporro (no proximo post)
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Quase Delírio (PARTE SEXTA)

São Luís, 15 de stembro de 2009
À volta a casa


DESFIZEMO-NOS DO ABRAÇO, e ela se despediu também com os olhos: o olhar que as dunas novamente se me revelara. Monise e família se afastavam enquanto eu deixei-me estar ao pé da cabana, aturdido pelas palavras que acabara de ouvir; ora, antes ela ofegava, era muda e tinha olhos caídos de febre, mas na despedida se me mostrou uma inesperada malícia ― fato este que me fez distraído ao ponto de não notar a chuvinha que surgia. Olhava fixamente Monise sumindo na noite, e ela não me cedeu mais um olhar, um desejado último, um que não me rendesse dúvida, nenhum olhar. Sumiu por completo.
Eu estava em companhia da cabaninha, da noite, da chuvinha (então notável), da bruma ressurgida, e do medo.
Foi uma assombrosa caminhada até as dunas; a escuridão me escondia o perigo a pouca distância de mim, pois não podia eu enxergar dois metros a minha frente. A minha mente já era paranóica: via em galhos secos no chão, corpos humanos; via a névoa que tocava o chão formar espectros; os gritos dos mochos me causavam sobressalto. O chacoalho dos sapatos encharcados não me deixavam ser silencioso, e as pernas, de tanto forcejar os passos pesados na areia, aos gritos, queixavam-se-me de cansaço. Então, na subida a duna, a cabeça, que só servia pra formar a imagem do rosto da sardentinha na mente, dera aos pés todo o ofício de conduzir o corpo, e este, reclamando-se de dor, aos trancos, fazia todo o trabalho.
Uma parte do caminho já era feito; havia eu passado pelas dunas e já pisava em “terra firme”. A pouco já estava a ver a avenida, a ouvir os estalos dos pingos da chuvinha que se esborrachavam no asfalto. A chuvinha cessou subitamente, mas rapidamente dera lugar a um toró ― fato este que me fez acelerar os passos.
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No caminho, surge um certo Sr. Valdir (no próximo)